04 dezembro 2011

momentos.

Ontem almocei por volta das 15h e fui para a faculdade. Fiquei lá umas 4h até ter fome. Resolvi vir embora e na saída encontrei uns amigos com quem fiquei na conversa. Mas por pouco tempo, eles estavam a comer e senti a fome a apertar. Vim embora e disse que estava mesmo com muita fome. A caminho de casa passo por um sujeito ajoelhado no chão a pedir comida. Ele tinha as mãos na cabeça e gritava: "Por favor, não consigo humilhar-me mais...alguém me dê comida". Não pedia dinheiro. Já o conheço de várias vezes passar por ele e ficar um bocado na conversa. Não tinha comida comigo, por isso segui caminho.

E aquelas palavras ficaram-me na cabeça. Em conjunto com a desculpa que dei aos meus amigos: "estou cheio de fome" ...eu só fiquei 4h sem comer...

Sei lá eu o que é fome.


O mais perto de fome que já experimentei foi há uns tempos, fiquei três dias sem comer. E ao terceiro dia já sentia a mente a pregar-me partidas, o estômago a contorcer-se sobre si mesmo, a fraqueza no corpo que me impedia de pensar como deve de ser. As dores que se sentem são estranhas e terríveis. E isto apenas com três dias. Há pessoas que passam muito mais tempo neste estado. Não sei como aguentam.




Voltando ao sujeito, como não tinha comida continuei com um andar pesado. Queria ajudar, fazer algo, apaziguar aquele sofrimento. É nestas alturas que as vozinhas começam a falar alto dentro da mente. As desculpas todas para que a consciência não leve a melhor. Para que consiga dormir à noite e olhar-me no espelho. E dá inicio a discussão: 


"Paul não tens comida contigo, que vais fazer?"


Paul: Posso dar dinheiro para que ele possa comer.


"Tu já tens pouco contigo e ele não pede dinheiro. E sabes lá tu se ele vai usar o dinheiro para outras coisas."


Paul: Sim, não sei. Ele pode estar a mentir, mas quem sou eu para julgar?


"Deixa-te de coisas, ninguém faria isso por ti. Pode ser perigoso, podem estar à espera que mostres dinheiro para te assaltarem."


Paul: Não quero saber o que fariam por mim, quero estar em paz comigo, quero ajudar.


E esta discussão durou mais algum tempo, até resolver não escutar mais estas desculpas e ir até ao pingo-doce. Fiz algumas compras para casa e aproveitei e comprei umas bolachas e uma garrafa de água, pedi um saco a mais. Sei que lhe dá muito jeito um saco destes. Voltei ao sítio onde o sujeito estava e entreguei-lhe o saco com as bolachas e a água (foi menos de 1€ pelas duas coisas). Ele já não estava de joelhos mas andava de um sítio para o outro a tentar falar com as pessoas que não o viam. Dei-lhe o saco e ele agradeceu, quase chorou. "Obrigado amigo, Deus o abençoe." disse ele. Nestas condições ainda diz isto. Admiro-o. 


Eu sei bem que não são "vozes", mas sim o medo a falar. Parte de mim que quer estar seguro, que quer que eu chegue a casa e não quer que eu me massacre com estas ideias. Acho que todos passamos por isto. Parte de nós quer ajudar e outra parte diz que não devemos ajudar por isto ou por aquilo...desculpas e mais desculpas. É esta uma das razões porque por vezes tento enfrentar os meus medos, para reconhecer esta voz. A voz do medo. E assim perceber quando ela está a exagerar e quando lhe devo dar ouvidos. Eu sei que existem associações para ajudar pessoas nestas condições. Mas no momento quis fazer algo. Não quis ceder ao medo, às desculpas e pelo menos fazer algo por ele.

Há uns dias atrás uma amiga deu-me um link de uma organização de ajuda que fica aqui no Porto. Talvez esteja na altura de ser mais activo. Por vezes não temos que fazer muito para mostrar a algumas pessoas que elas não estão sós. Que existe quem se preocupa. Por vezes é preciso muito pouco...



Embora o tenho ajudado...esta imagem continua na minha cabeça...um sujeito com a barba enorme, muito magro. De joelhos no chão, mãos na cabeça a chorar...a implorar por comida. E já me conheço, este momento vai ficar na minha mente durante muito tempo.
...

4 comentários:

Joana Laranjinha disse...

É normal que tenhas ficado a pensar nisso, tu tens bom coração. Geralmente essas pessoas vêm pedir dinheiro e nós francamente, não sabemos com toda a certeza para que o querem. Pode ser para comida como pode ser para certas coisas... Mas esse senhor apenas queria comida. E não haveria ninguém nos arredores, ninguém que trabalhe num café ou que estivesse a passar com um saco cheio de pão para o jantar, que lhe desse? :/

Sara Matos disse...

:') como eu te entendo

...Ju... disse...

o que me choca, além da descrição da situação, é passarem as pessoas por ele e não o verem!!! felizmente para ele, tu viste e tens um pingo de consciência!

Paul d.C. disse...

Pelo que vi as pessoas seguiam em frente. Algumas diziam que não tinham nada, outras olhavam para o lado. Enquanto fui às compras não sei se alguém deu alguma coisa. Quando voltei vi um sujeito a dar-lhe dinheiro.

Eu compreendo que haja desconfiança, mas podiam ao menos olhar para a pessoa e dizer algo...não sei. Não posso falar pelos outros, não sei o que move cada pessoa...